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Minicontos: a potência de poucas palavras para contar uma história

event_note10/05/2025 19h01
MMinicontos: a potênc...
Recebi com muita alegria o resultado da seleção minicontos para antologia da Editora Comala, que será lançado na FLIP 2025. Meu conto Procissão foi um dos selecionados (RESULTADO AQUI).

A FLIP esse ano homenageia Paulo Leminski que deixou em uma pasta uma seleção de contos que foi publicado postumamente em 2004 pela Editora DBA, Gozo Fabuloso. É neste livro que se encontra o ágil e curto conto Sintomas, feito apenas com diálogos muito ágeis entre alguém que sofre de rimas a um médico especialista. É um deleite! Leminski brinca com a condição de poeta que não consegue parar de escrever versos rimados. - E sonetos?, pergunta o médico, preocupado com o sintoma mais extremo da rima. - Só quando durmo de barriga vazia. , responde o paciente. Há uma ironia nisso, pois Leminski, um grande poeta dos versos livres, fruto do pensamento modernista na literatura e também influenciado pelo movimento de poesia concreta, disse uma vez que O conto é soneto de hoje, ou seja, na visão dele, seria suplantado tal como o soneto no início do século XX. É curioso que sua última obra inédita publicada seja de contos.

Se quiser ler e ouvir o pequeno conto Sintomas, de Paulo Leminski, pode acessar o vídeo do canal do Youtube Da Boca Pra Fora clicando aqui.

Se não está acostumado ou acostumada com os minicontos, são obras ficcionais em prosa com poucas palavras (50 a 300, mais ou menos). Para escrever exige bastante concisão. Há um contista contemporâneo muito conhecido, o escritor Marcelino Freire que em uma live durante a pandemia brincou dizendo que era considerado escritor de ficção curta e que estava preparando um livro de ficção longa ! Há um tempo atrás li algumas composições classificadas como twitteratura, contos com até 140 caracteres ( que cabe em um ex-twitte - agora essa "escola literária" terá que mudar de nome!).

Estudos acadêmicos vem sendo realizados sobre este tipo de conto. A miniaturização na literatura brasileira foi estudada por Francilene Cechinel, 2019, apontando a "geração 90", ainda atuante, como grande marco deste tipo de produção. As miniaturizações podem ser estudas na poesia também. Leminski pode ser citado novamente, com seus haicais, verdadeiro exemplo de poesia minimalista surgida no Japão. A série Ideolagrimas de Leminski é fantástica, sem falar em seus poemas concretos. A própria poesia concreta é, de certa forma, em muitos aspectos, minimalista. O espaço em branco compõe o poema.

Os minicontos, por outro lado, constroem as narrativas, as histórias, com poucas palavras. O não dito, ou as entrelinhas, são muito importantes nestes textos. Nos espaços não habitados pelo texto escrito é que a narrativa acontece. Em geral, quando funcionam, são torpedos. É mais difícil trabalhar a poética nestes textos curtos, pois, na prosa, a poética está contida nas imagens, na linguagem, em que pesem os poemas construídos pelos irmãos Campos a partir da prosa de Euclydes da Cunha em Os sertões. Os poemas ficcionais têm, também, o poder de miniaturizar narrativas (CECHINEL, 2019).

Será que seria um outro gênero literário? Miguel Heitor Braga Vieira escreveu um artigo que apresenta uma possível genealogia para o miniconto brasileiro contemporâneo (VIEIRA, 2015). Ele cita trabalho de Marcelo Spalding, grande estudioso do gênero contos, que aponta a gênese da concisão ainda nos Romances de Machado de Assis, por exemplo, nos vários capítulos curtos (de um parágrafo!) de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Raul Pompéia é citado por Vieira pelo mesmo motivo.

Escrevendo contos curtos, mesmo, não fragmentos em romances, Dalton Trevisan é apontado como o precursor do miniconto no Brasil com a publicação de seu livro Ah, é? (1994). É importante mencionar e reconhecer o mineiro Elis José como precursor também, pois publicou na década de 70 em revistas e jornais de Minas contos muito similares ao miniconto contemporâneo (VIEIRA, 2015).

Dentro da perspectiva do imediatismo atual, da velocidade das redes socais, da concentração por pouco período de tempo, minicontos de terror, inclusive uma das especialidades da Editora Comala, tem contribuído para formação de jovens leitores (MORAES et al, 2019). A proposta é que a partir da leitura destes textos curtos os leitores sejam pegos pelo laço no gosto pela leitura. Uma esperança para o mal da rolagem de tela.

O fato é que o miniconto está cada vez mais presente na literatura brasileira (SPALDING, 2009) e, portanto, obras que abram as portas para novos autores neste gênero são muito bem vindas!

REFERÊNCIAS

CECHINEL, Francilene Maria Ribeiro Alves. O miniconto e a história da minificção brasileira. 2019.

MORAES, Zenilda Roza; SILVA, Veronice Camargo; SANTANNA, Sita Mara Lopes. Os minicontos de terror na formação do leitor na educação de jovens e adultos.
TEXTURA-Revista de Educação e Letras, v. 21, n. 45, 2019.

SPALDING, Marcelo. Presença do miniconto na literatura brasileira. Revista Conexão Letras, v. 7, n. 8, 2012.

VIEIRA, Miguel Heitor Braga. Origens do miniconto brasileiro contemporâneo. Revista Língua&Literatura, v. 17, n. 28, p. 66-80, 2015.
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José Huguenin é natural de Santa Rita da Floresta, Cantagalo (RJ). É professor universitário em Volta Redonda (RJ), onde mora. Laureado em vários prêmios literários, tem publicado livros de poesias (Vintém e Experimentos poéticos), crônicas (De manga a jiló provei...), divulgação científica (Estranhezas e mitos da mecânica quântica), contos (A parede & outros contos) e um romance (O vaqueiro e o jornalista). É membro da Academia Volta-redondense de Letras.

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Já em Vintém Huguenin flertou com o concretismo com o poema "Universo", texto que funde física e poesia. Neste novo livro, a experiência é aprofundada e nos sentimos flutuando com "Gravidade", e aquecidos com "Calor".A experiência em poemas concretos vai além."Araucária" é uma ode a natureza, elevamo-nos com "Escada caracol" e "Escada para subir", uma experiência estética que nos liberta do lugar-comum.

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De manga a jiló provei na terra onde me batizei traz duas dúzias de textos que vão arrancar, no mínimo, um sorriso de prazer do leitor.

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O livro tem também bola murcha, seresta, encomenda frágil, abelhas mal-educadas, televisão, vaca brava no carnaval e folias de Reis...

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closeVintém

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