keyboard_arrow_up
Compartilhe essa prosa

As quase histórias de Giovani Miguez

event_note07/03/2020 08h55
AAs quase histórias d...
Fico sempre encantado com os encontros que a poesia nos proporciona. Em um destes encontros, ela, a poesia, me levou a Giovani Miguez, volta-redondense radicado na maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, e a seu texto, sua estética.

Miguez fala em ser “filosofante” e seu livro “Quase histórias – Est(éticas) existênciais (Ed. Autografia- 2019)” é, de fato, uma espécie de tratado filosófico-poético. Assume no livro que a escrita, a poesia, o estrutura emocionalmente, sendo, para ele, terapia. Sua “Pequena hipótese est(ética)” na orelha do livro nos leva a refletir sobre a força da estética na construção da ética humana. Com a simbiose destas duas palavras, cria quadros cuja tinta é a linguagem, pintando cenas curtas de longuíssimo alcance. Os textos curtos têm a estrutura dos chamados micro contos, mas seus “Aforismos existenciais” são quase histórias. Em muitos textos não encontramos a ação, típica de contos, mas uma reflexão “filosofante” profunda, como no texto “Perdi-me em convicções” (pág. 16) que coloca a falta de dúvidas como criadora de convicções vazias. A vida é o tema central das quase histórias e, em dado momento, nos diz que o sentido dela, da vida, é o propósito que nós a damos (“sentido da vida, pág.46).

Identifiquei-me com o exílio da poesia vivido por Miguez em sua juventude. Enxerguei-me menino, pelas ruas da Floresta, a imaginar-me poeta, escritor, lembrei-me da timidez a ser vencida e dos fatos que tentaram me convencer de que a poesia era inútil frente a realidade bruta que por vezes de impunha. Daí, ao escolher estudar física, uma outra estética se apresentava, seguia linhas de campo, até que um quase acaso me fez voltar a escrever poemas. Nesse ponto, vi que filosofia fragmentária que o autor de “Quase histórias” nos oferece não é sobre si ou sobre suas próprias angustias, mas sobre a existencialidade humana e penso ser impossível um leitor desta obra não (re)descrobrir-se em suas linhas.

No texto “Era poeta e não cientista” (pág. 26) vivi, um pouco, os dois lados. Meu dia-a-dia é quase sempre buscar explicar algo. A obra de Deus está oculta também nas entrelinhas da natureza, assim como a espiritualidade permeia a escrita de Miguez até que salta, direta, pujante, em “Deus é realidade” (pág.36). O cientista tenta explicar. O poeta tenta expressar as belezas da natureza e as contradições humanas. Em ambos os casos, a existência é a ponte que liga tudo a um propósito que certamente há de se ter, pois Ele não colocaria as estrelas em movimento, “percorrendo o firmamento em carrossel”, como escreveu Chico Buarque, sem um destino certo.

A segunda parte do livro, “Est(éticas) existenciais” (pág.50), é composta por poemas. Giovani escolheu escrever Haicais e Aldravias, formas curtas e diretas de se versificar. Esses formatos foram magistralmente usados tanto para expressão harmônica que a sonoridade das palavras cuidadosamente garimpadas provoca, quanto para exemplificar de forma incisiva seu tratado est(ético). Aqui, os poemas curtos são cortantes. Vão na ferida. Tocam nosso coração e mente. Um exemplo rico da ética que surge da estética poética de Miguez, que minha visão leitora escolheria como ponto convergente de sua obra, é a aldravia número 11 (pág.54)

“pouco
importa
quem
se
importa
importe-se”

E como a existência humana não é isolada, em que pese as individualidades, a preocupação com o outro, a inconformidade com as injustiças sociais não poderiam estar ausentes neste tratado. Haicais nos fazem refletir sobre crimes humanitários, como o primeiro de uma pequena série dedicada aos pixotes que o autor encontra todos os dias (pág.77)

“na sarjeta
Menino brinca de ser feliz;
Felicidade sarnenta”

Saímos da leitura destas “quase histórias” quase saciados. É que a poética da obra nos deixa com aquele gostinho de “quero mais”. Felizmente, como aponta em seu “Epílogo”(pág.85), se na juventude enterrou sua alma abandonando seu texto, duas décadas depois, sacudido pelas dores da vida, Miguez nos tranquiliza:
“meus versos acordaram.
e agora? só quero escrever.”

Tem muita poesia por vir!
Veja também

LIVROS PUBLICADOS

Poemas para pequenos leitores - José Huguenin
closePoemas para pequenos leitores

Entre rios, árvores e flores, as palavras também crescem. Neste livro, a poesia convida as crianças a descobrirem as palavras, a natureza, alguns conceitos de ciências e a importância de cuidar do mundo.

Ininterrupto - José Huguenin
closeIninterrupto

Em Ininterrupto, José Huguenin funde ciência e poesia num diálogo inusitado entre razão e emoção. A obra percorre as fronteiras entre o concreto e o simbólico, o cálculo e o canto, o átomo e a palavra. Em poemas que assumem formas visuais e jogos gráficos — herdeiros da tradição concretista de Augusto de Campos — o autor transforma leis físicas, fenômenos naturais e experiências humanas em metáforas luminosas. Dividido em três partes — Continuidade, Contiguidade e Prosseguimento — o livro avança da poesia-cálculo para o verso-sentimento, do cosmos à condição humana, até alcançar a ternura dos “poemas azuis”, dedicados à vivência do autor como pai. Uma obra que revela a poesia como movimento contínuo: ciência da alma e arte do existir.

Universalidades - José Huguenin
closePequenos Ensaios sobre (Quase) Tudo

Os textos reunidos neste volume foram escritos ao longo dos últimos dez anos, motivados pelo desejo de manifestar ideias sobre diversos temas. Esse "(quase) tudo" quer dizer que esses (pequenos) ensaios não têm um tema preferencial, mas versam sobre um espanto ou uma necessidade de expressão. Os textos abordam a relação da literatura com a ciência, diferentes manifestações poéticas e arte em geral. Titulo dos ensaios: "Ciência e arte: construções humanas", "Letra de música é poesia?", "Chico Buarque e o Prêmio Camões", "Sobre ser membro de uma academia de letras";"A arte social de Tarsila do Amaral", "150 anos de Euclydes da Cunha", "Antônio Conselheiro: profeta ou não?", "115 anos sem Euclydes da Cunha".

Universalidades - José Huguenin
closeUniversalidades

Fazer arte é ciência? Entender as ciências é uma arte? Em "Universalidades", é possível encontrar a união destes dois conceitos: arte e ciência / ciência e arte. Não há sobreposição ou ordem de grandeza. José Huguenin, por meio das palavras e teorias, consegue realizar uma comunhão perfeita entre tais objetos. Atraindo diferentes leitores, consegue tirá-los de suas zonas de conforto. Aqueles que gostam de poesia são desafiados a entender as teorias científicas abordadas. Também aqueles que entendem de física e matemática são convidados a um mergulho na literatura.

Em uma obra com diferentes tipos de poemas, o leitor vai ser convidado a não apenas ler cada palavra, mas enxergá-la no papel, admirar as formas propostas e, até mesmo, a tirar o objeto-livro da posição usual.

Uma leitura inspiradora e de desafios!

Livro integra a Coleção Mais Poesia da Editora Outra Margem. Acompanha encarte especial com poster de poemas, fotos especiais e informações sobre a obra e o autor.

Relatos de um arigó - José Huguenin
closeRelatos de um Arigó

José Huguenin é um poeta de raízes. Em sua poética, há muito das terras de onde nasceu, cresceu e por onde pisa. Sua poesia é repleta de origens e regionalismos, que são apresentados com respeito e apreço. A força do chão se une a sentimentos reais de todos os seres humanos, nos quais qualquer leitor se identifica. O universalismo, em sua poética, se dá pelo coração de quem possui uma história, memórias e vivência familiar.

Vidas Sertanejas - José Huguenin
closePoemas de Tempos de Cólera

Reunião de poemas escritos durante e sobre a pandemia da COVID-19, entre março de 2020 e agosto de 2021. BAIXE GRATUITAMENTE.

Vidas Sertanejas - José Huguenin
closeVidas Sertanejas

Euclydes da Cunha desenhou e explicou diversos acontecimentos, personagens e paisagens do Brasil. Dessa forma, ainda hoje, sua obra é vastamente estudada e matéria-prima de teses e debates. Em "Vidas sertanejas", José Huguenin utiliza o panorama deixado pelos textos euclidianos, bem como situações históricas, possíveis personagens e as consequências de embates, como material para uma obra muito sugestiva e que instiga o leitor a buscar ainda mais. Com as histórias do universo euclidiano de plano de fundo, os contos deste livro desenvolvem-se em homens e mulheres simples, humildes e cheios de sonhos.

koiah - José Huguenin
closeKoiah

A obra "Koiah" é composta de poesias recheadas de conhecimento, homenagens e sentimentos. Ao longo da leitura, é possível encontrar um eu lírico de muitas vivências e reflexões sobre acontecimentos históricos e experiências íntimas e pessoais.
Assim, fica impossível não criar empatia com as palavras que constroem cada poema. As referências a grandes escritores unem-se às poesias concretas que se misturam com a emoção e os anseios de um pai com seu filho.
Dividida em seções com palavras da língua Puri, da nação indígena, o leitor encontrará um ritmo agradável em poemas que, ao mesmo tempo, denunciam e emocionam.

raio de sol - José Huguenin
closeRaio de Sol

O olhar do especialista encontra a beleza da natureza. Resultado: poesia!

Com este trabalho, o escritor José Huguenin amplia as fronteiras de sua atuação artística. Doutor em Física, ele pesquisa na área de óptica quântica e óptica aplicada. A luz, portanto, está no cotidiano do autor, nas mais variadas formas de olhar que a ciência e a poesia podem oferecer. Aqui temos o físico e o poeta misturados em cada foto. Explorando os conceitos de difração e espalhamento, busca o chamado "efeito estrela", em fotografia conhecido como "Sunburst".O equipamento utilizado é uma câmera portátil de um smartphone, sempre à mão quando as cenas despertavam no autor o desejo de registro. As fotos são mostradas cruas, sem tratamento e harmonizam a luz do sol com o verde e o concreto das cidades.

José Huguenin é natural de Santa Rita da Floresta, Cantagalo (RJ). É professor universitário em Volta Redonda (RJ), onde mora. Laureado em vários prêmios literários, tem publicado livros de poesias (Vintém e Experimentos poéticos), crônicas (De manga a jiló provei...), divulgação científica (Estranhezas e mitos da mecânica quântica), contos (A parede & outros contos) e um romance (O vaqueiro e o jornalista). É membro da Academia Volta-redondense de Letras.

o vaqueiro e o jornalista - José Huguenin
closeO Vaqueiro e o Jornalista

A história narra o encontro dramático de um Vaqueiro com um Jornalista no sertão da Baia em plena guerra de Canudos. O Vaqueiro vai para Canudos com a família guiado pelas profecias de Antônio Conselheiro fugindo da injustiça do coronelato. Jornalista republicano vai para Canudos para observar a guerra em curso, acreditando se tratar de um levante monarquista. A narrativa tem como ambiente um dos momentos históricos mais dramáticos do país. O positivismo republicano na figura do Jornalista depara-se com a força e sabedoria desassombrada do sertanejo, na figura do Vaqueiro. O Jornalista encarna as vivências de Euclides da Cunha durante a guerra, personificando-as, através referências indiretas e diretas às constatações de "Os sertões".Seguindo a saga da família do Vaqueiro, é possível andar por entre as ruelas da Canudos sitiada. O amor de pai e filho é colocado à prova no meio do sangue derramado. Perdas dolorosas não demovem dos sertanejos a certeza da vitória. O encontro com o Vaqueiro desvenda para o Jornalista os motivos pelos quais os sertanejos lutam. O Vaqueiro se vê em situações que o levam a ser personagem decisivo para a resistência sertaneja e a preservação de muitas vidas. Mas como enfrentar um exército julgando e punindo um crime que não existiu?

livro experimentos poeticos - José Huguenin
closeExperimentos Poéticos

Experimentação e Inquietação. Estas são boas palavras para associarmos aos "Experimentos poéticos" de José Huguenin. Como se diz na física, área de formação do poeta, estes experimentos comprovam o amadurecimento dos versos desde Vintém, seu primeiro livro de poesias. Aqui, os poemas passeiam por diferentes temáticas, o que é comum em livros de poesia, mas o inquieto poeta apresenta variada estética, experimenta povoar de emoção formas clássicas, como sonetos, e populares, como a trova. Versos livres, poemas concretos, enfim, uma aquarela de formas e temáticas.

Já em Vintém Huguenin flertou com o concretismo com o poema "Universo", texto que funde física e poesia. Neste novo livro, a experiência é aprofundada e nos sentimos flutuando com "Gravidade", e aquecidos com "Calor".A experiência em poemas concretos vai além."Araucária" é uma ode a natureza, elevamo-nos com "Escada caracol" e "Escada para subir", uma experiência estética que nos liberta do lugar-comum.

A Segunda Edição traz, ainda, uma resenha da Poeta, Doutora em Literatura, Gisele Giandoni Wolkoff.

livro de manga a jilo provei na terra onde me batizei - José Huguenin
closeDe Manga a Jiló Provei na Terra onde me Batizei

De manga a jiló provei na terra onde me batizei traz duas dúzias de textos que vão arrancar, no mínimo, um sorriso de prazer do leitor.

No geral curtas e sempre muito ricas, as narrativas têm uma galeria diversificada de personagens: do candidato de primeira viagem ao estrangeiro chegado numa cachaça, do solícito e ingênuo aprendiz de pedreiro ao pai de Deus. Abordam temas inusitados, como picolé de fogo, doce de jiló e muita sopa (no velório e, vejam só, na pescaria), para ficarmos apenas no ramo da gastronomia.

O livro tem também bola murcha, seresta, encomenda frágil, abelhas mal-educadas, televisão, vaca brava no carnaval e folias de Reis...

Histórias que vão divertir gente da cidade grande e do interior, compiladas e recriadas por José Huguenin, com base naquelas que escutou na infância e adolescência, em uma sensível homenagem ao mais especial dos contadores de casos: seu pai.

livro a parede e outros contos - José Huguenin
closeA Parede & Outros Contos

A parede & outros contos, de José Huguenin, reúne textos premiados em concursos literários nacionais, como "Desencontros Certeiros", "O sabor dos velhos tempos", bem como em concursos internacionais, como "Ponto de Retorno".A temática é vasta, indo do humor ("O casamento dificultoso"), suspense ("Eu sei o você fez"), realidade fantasiosa ("O japonês em sangue") até aos textos dramáticos, como "A parede", que dá nome ao livro. Também são apresentados experimentos narrativos através de micro-contos: textos curtos, com poucos caracteres.

livro estranhezas e mitos da mecanica quantica - José Huguenin
closeAs Estranhezas e Mitos da Mecânica Quântica

Qual a origem da mecânica quântica? O nome está relacionado ao fato de a energia ser descrita por quantidades discretas: "quantas" de energia. Mas por que o comportamento quântico causa tantas estranhezas e mitos ao seu redor? Quais são as principais aplicações e tecnologias geradas pelo conhecimento quântico?

livro vintem - José Huguenin
closeVintém

Vintém, primeiro livro publicado de José Huguenin, apresenta poesias com uma musicalidade suave, que nos conduz durante a leitura, e uma expressividade desconcertante, que mexe com os sentimentos, aqueles mesmo que, para sobreviver, escondemos dentro de nós. O texto tem ritmo e melodia que arrebatam quem lê. E como são repletos de significado! O autor transita por diversos estilos, quase como se não fosse apenas um, mas vários Josés a escrever. Flerta com o concretismo e passeia tanto pelos textos mais verborrágicos (sem nunca nos cansar com seus 'excessos') como pelos mais enxutos (sem nunca nos deixar à deriva) - nos dois casos, exige a participação do leitor, porque nunca se esquece de quem fica do outro lado da obra.

livro a luz da historia - José Huguenin
closeA Luz da História

No ano em que a Unesco celebra a luz, Antônio, um estudante brasileiro vai à Paris receber o prêmio de uma olimpíada científica. Em um museu ele descobre um pergaminho antigo que pode mudar a história da ciência, colocando em risco a reputação de um eminente membro do Priorado de Sião. Sua vida fica por um fio em um enredo que envolve um prêmio nobel de física. Somente alguém muito especial para o salvar deste pesadelo.

José Huguenin © 2026. Todos os direitos reservados.
https://www.josehuguenin.com