Compartilhe essa prosa

Ilusões e mentiras que mostram o poder narrativo Godofredo de Oliveira Neto

event_note29/03/2026 09:59
Machado de Assis não recebeu a alcunha de “bruxo” à toa. Foi mestre de engendramentos narrativos onde a psiquê humana nas relações cotidianas foi o grande motor para seus romances e contos. Essa força narrativa fascinou e influenciou prosadores e estudiosos da literatura do país, e continuará a fazê-lo indefinidamente.

O acadêmico da ABL, professor titular do Departamento de Letras Vernáculas da UFRJ e grande prosador Godofredo de Oliveira Neto, leva seu fascínio pelo Bruxo às últimas consequências ao recriar (?), dialogar(?), atualizar(?), obras machadianas em Ilusão e mentira (Editora Batel, 2014). O primoroso prefácio de Silviano Santiago discorre sobre o que seria uma “história original”, o cânone que é (consciente e inconscientemente) reescrito ano após ano. Esse é um convite a adentrarmos no universo desse livro onde Godofredo oferece ao leitor dois contos baseados em obras de Machado. O clássico romance Dom casmurro é substrato do conto Val e Lalinha, e o conto Ideias de canário origina O galo Adamastor.

Ainda não tinha lido o Ideias de canário de Machado e achei por bem fazê-lo antes de ler a obra de Godofredo para poder capturar as intencionalidades e pontes construídas pelo grande autor de A Ficcionista. Formidável conto de Machado. Um canário que fala (ou seria um homem que o ouve?). O realismo fantástico aflora, então, neste pequeno conto de 1895 publicado na Gazeta de Notícias. Expoente máximo do realismo no Brasil, o realismo fantástico emerge com força e sem estardalhaço em Machado. O “defunto-autor” de Memórias póstumas de Brás Cubas, lançado em 1881, é um exemplo disso. Há vários trabalhos acadêmicos que analisam contos como Sem olhos e, é claro, o Ideias de canário, do ponto de vista de realismo fantástico.

O galo Adamastor é um conto que apresenta cortinas que vão se abrindo e dando diferentes perspectivas a quem lê à medida que avança. Como se houvesse um palco atrás de outro palco. Essa é uma marca da narrativa de Oliveira Neto: criar molduras para a narrativa principal. Um galo toma lugar do canário. Sua linguagem de gírias para além da colônia portuguesa em Santa Catarina, estado natal do autor, que toma lugar da loja de belchior no conto de Machado, surpreende o “web designer” M. Santos. Se em Machado as ideias do canário mostravam uma visão de mundo fluida, Oliveira Neto faz-nos refletir sobre o que é liberdade. O que é ilusão e mentira? - parece nos indagar o autor pinçando essas palavras-chave do conto de Machado.

O conto Val e Lalinha tem a moldura de uma antiga funcionária de uma instituição penal feminina onde transcrevia fitas de depoimentos. Muito idosa, entristecia pelas as antigas fitas k-7 estarem inaudíveis pela umidade da cidade maravilhosa e estrepolias dos netos. Uma velha sobrinha solteirona lhe dá a transcrição de um depoimento de uma detenta a uma psicóloga judicial. É na trajetória desta detenta que aparecem ilusões e mentiras de Dom Casmurro, quando ações de Lalinha se confundem com as de Bentinho. Val, a rival contra quem tem oportunidade desferir as consequências (infundadas?) de seu ciúme. Bentinho não teve oportunidade de confrontar seu amigo Escobar. A genialidade narrativa de Godofredo constrói com a linguagem das comunidades dominadas pelo tráfico um castelo de cartas onde não reconhecemos a porta de saída. Será que temos aí indícios do que pensa o autor de Val e Lalinha a respeito da célebre dúvida sobre as ações de Capitu? Seguindo a ideia de Silviano Santiago, daqui a pouco estaremos a nos perguntar a respeito da dúvida sobre as ações de Lalinha como reverberação do cânone transformado.

Uma curiosidade sobre esse conto é que Lalinha tem um diário que é dado à psicóloga pela presidiária. A profissional nota que a escrita traz algo de estabilizador para a detenta. É pelas palavras de Lalinha no diário que a Psicóloga tem dúvidas e decide pedir a reabertura de um processo. A escrita salva? A leitura de Ilusões e mentiras, é, para nós leitores, um alento. É tudo que posso afirmar.

Por tudo isso, pela ilusão causada no leitor, que é remetido, sem dúvida, ao texto de Machado, mas que encontra elementos muito autoriais de um escritor que tem um grande poder narrativo e os usa sem moderação em sua criação. A histórias se repetem no mundo, concordo com Santiago. Aqui somos iludidos com essas histórias e amamos isso.
Veja também

LIVROS PUBLICADOS

Universalidades - jose huguenin
Universalidades - jose huguenin
Universalidades - jose huguenin
Relatos de um arigó - jose huguenin
Vidas Sertanejas - jose huguenin
Vidas Sertanejas - jose huguenin
koiah - jose huguenin
raio de sol - jose huguenin
o vaqueiro e o jornalista - jose huguenin
livro experimentos poeticos - jose huguenin
livro de manga a jilo provei na terra onde me batizei - jose huguenin
livro a parede e outros contos - jose huguenin
livro estranhezas e mitos da mecanica quantica - jose huguenin
livro vitem - jose huguenin
livro a luz da historia - jose huguenin
José Huguenin © 2026. Todos os direitos reservados.
https://www.josehuguenin.com