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O retrato do artista quando jovem: Um livro sem título, primeira obra poética de Christovam de Chevalier

event_note01/01/2026 12h00
OO retrato do artista...
No romance de formação de James Joyce, O retrato do artista quando jovem (Irlanda 1916, Brasil 1960) a personagem central, Stephen Dedalus (alter ego de Joyce), vive, desde a infância, uma jornada de formação humana e artística. Sufocado pelas restrições familiares, da igreja e pelo nacionalismo irlandês exacerbado, como tornar-se um artista livre? Como driblar grilhões que impedem o desenvolvimento de uma estética se está em um labirinto que aprisiona (evocação ao grande artífice mítico Dédalos, que ficou preso no próprio labirinto construído para aprisionar o Minotauro)? A única saída é romper com essas amarras e, para isso, deixa a Irlanda em direção a Paris. Podemos perceber uma espécie de metalinguagem de Joyce, pois ao realizar esse romance uma nova estética vem à tona (O retrato é considerado um marco do modernismo), que hoje conhecemos como fluxo de consciência.

Joyce me veio a mente quando li Um livro sem título (7 letras, 1998), primeira obra poética do Poeta Christovam de Chevalier. Pensei em Joyce seja pela percepção de um sentimento de busca vital, de vitalidade, seja, literalmente, pela foto do jovem. Essa é a obra inaugural de um poeta-amigo que tanto admiro, publicada no alto de seus 22 anos. O curioso é que esse seu primeiro livro é o último que leio de sua lavra (todos publicados pela Editora 7 Letras). Comecei por Inventários de esperança (2021), após ler seu prefácio para Desjeitos (Uma Editora, 2021), livro da querida Poeta e amiga Flávia Souza Lima que me apresentou a Christovam. Depois, li Marulhos, outros barulhos e alguns silêncios (2019). Já envolvido pelos versos do Poeta, li No escuro da noite em claro (2016) e, em 2024, seu magnífico Da lida do tanto da vida, coroando 25 anos de atuação poética.

Um livro sem título está esgotado. Cheguei a perguntar ao Poeta sobre uma 2ª edição. A resposta foi que isso estava em horizonte não muito próximo. Foi ouvindo uma entrevista sua e de Flávia à jornalista Katy Navarro no programa Conversa com o Autor, da Rádio MEC, que me veio a solução para não esperar: Christovam disse que os livros estão por aí e poderiam se encontrados. Comecei uma busca na Estante Virtual. Achei um exemplar e um livreiro honesto que descreveu precisamente o estado do livro: excelentes condições, sem marcações. Pronto. Poderia ler o começo jornada.

Potência. Liberdade. Experimentação. Essas são palavras que me vieram a mente ao ler já os primeiros poemas. Ele confessa (todos os poetas confessam-se): “Meu coração tem fronteiras” (Poema reencontrado, pág.10). Fronteiras que não quer ultrapassar, mas que, para dar luz ao seu livro, precisou, por certo, romper. O estilo lapidado nos dias presentes pode ser percebido nos versos deste primeiro livro, mas há um ímpeto, um desbravamento, uma coragem típica dos jovens que desafiam o mundo, que sabem (ou pensam saber) tudo:

Não quero o amor conservador e católico,
Também não peço o amor pagão e ateu.
Quero o que não posso encontrar
No fundo de bosque bucólico,
Do sonho que outrora você prometeu
” (Pág.12)

Quanto à estética, os versos são, em geral, um pouco mais longos que a escrita atual e, talvez, mais arredios à musicalidade tão característica nos livros mais recentes. Mas a preocupação rítmica está estampada nas diversas quadras ao longo do livro, alternando-se com poemas mais longos, ou mesmo o uso singular de aliterações precisas que nos enchem a boca. Sim, seus primeiros poemas também nos convidam a ler em voz alta.

Também há desejos de fugas. “Não quero atender ninguém ao telefone.” ... “Não quero ser encontrado coincidentemente" (Transeunte, pág. 29). A fuga do lugar comum é a preocupação de qualquer um que queira ser poeta. Ele não quer o que há, não quer "... o triste som do alaúde desafinado / ... o bafo velho dos idos banguelas” (sem título, pág. 25). Mas não nega a tradição (já mencionei as quadras), o inconsciente não o deixa romper definitivamente:

Arranca o CD do Paulinho da Viola
Que estou a ouvir no CD player
(Ou ainda seria vitrola?)

(sem título, pág. 26)

Estava a ouvir um CD, ápice tecnológico de reprodução musical em 1998, ano de publicação da obra, mas hesita em abandonar a vitrola. Os discos de vinil, que devem ter moldado seu gosto musical na adolescência, representam os poetas que ele lia (ou sentia). Hoje o CD player é a vitrola de antes. Da agulha dos toca discos ao laser do CD player e deste às ondas eletromagnéticas internéticas do streaming. Mas a poesia não precisa de plataforma. Ela toca-nos e ponto.

A música, muito presente no autor, aparece explicitamente em “Canção para Maria Bethânia” (pág. 43) e seu timbre de pedra. Esse tipo de homenagem está presente também em seu último livro (Da lida do tanto da vida) em “Três temas sobre vozes femininas”, onde canta para Julia Vargas, Adriana Calcanhoto e Simone, a cigarra.
O poeta, na busca de si, nega-se:

Não sou poeta.
Nem nunca fui poeta.
Não sou nem nunca fui porque simplesmente não sei sê-lo.

(Devaneio, pág. 50)

Mas é um fingidor, ou seja, o poeta desmente-se na cara leitor. Mas nisso não há nenhum pedantismo, ele assegura que sua “... poesia não quer impressionar ninguém” (Aversões da poesia, pág.49). Mas impressiona. E cativa.

Ele não quer ser. Ele simplesmente é, como somos nós, todos, “...meros reflexos” (Devaneio no. 2, pág. 51) uns dos outros. Em Eu mesmo (pág.35), define-se:

Eu sou assim:
Não sou mais, nem sou menos:
Não sou mutável, nem sou mais eu mesmo.


Esse último verso traz uma contradição proposital de grande efeito poético: não ser ele mesmo é mutar. É possível ver no painel de sua obra alguma mutação ou melhor, é possível ver escolhas de caminhos tomados pelo Poeta após as experimentações mostradas nesse Um livro sem título. Sua poesia ficou mais lírica, sem perder o compromisso com seu tempo. Vemos na estética a lapidação natural do tempo e das vivencias do Poeta que é.

A liberdade, santo graal da juventude, pode ser vista em composição de poemas libertários, onde o (hipócrita) pudor é deixado de lado em Poema saudosista (pág. 14), Menstrual ( pág.38) e Poema misógino quase concreto (pág. 41), entre outros.

Por falar em “quase concreto”, a experiência estética do jovem poeta em busca de voz constrói um grande pequeno poema concreto: maremoto (pág. 36). Nos deixa de “Alma lavada”. Influência do mestre Ferreira Gullar a quem tem o topete (ah, a juventude) de dedicar o Poema imundo (Pág. 39), uma homenagem, uma citação, uma construção rica que nos aponta o movimento necessário para a vida:

Sonhos que voam,
Vozes que soam,
Corpos que suam,
Bocas que beijam, comem,
Cospem, vomitam


Generoso, Christovam de Chevalier costuma dizer que não há poema bom nem ruim, mas preocupa-se se o poema cumpre seu papel. E aqui devo dizer que já nos primeiros poemas vemos que seus versos tem um papel muito relevante na poesia contemporânea brasileira. Mas isso já foi reconhecido por Ferreira Gullar e Jorge Salomão. Quem sou eu para discordar. Resta-me esperar pelo próximo livro.
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José Huguenin é natural de Santa Rita da Floresta, Cantagalo (RJ). É professor universitário em Volta Redonda (RJ), onde mora. Laureado em vários prêmios literários, tem publicado livros de poesias (Vintém e Experimentos poéticos), crônicas (De manga a jiló provei...), divulgação científica (Estranhezas e mitos da mecânica quântica), contos (A parede & outros contos) e um romance (O vaqueiro e o jornalista). É membro da Academia Volta-redondense de Letras.

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Já em Vintém Huguenin flertou com o concretismo com o poema "Universo", texto que funde física e poesia. Neste novo livro, a experiência é aprofundada e nos sentimos flutuando com "Gravidade", e aquecidos com "Calor".A experiência em poemas concretos vai além."Araucária" é uma ode a natureza, elevamo-nos com "Escada caracol" e "Escada para subir", uma experiência estética que nos liberta do lugar-comum.

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O livro tem também bola murcha, seresta, encomenda frágil, abelhas mal-educadas, televisão, vaca brava no carnaval e folias de Reis...

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