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Louv(ações), de Raquel Leal

event_note17/08/2025 10:03
O primeiro livro solo da poeta Raquel Leal traz alentos e alertas. Nos faz mergulhar em um mundo enraizado no país, de frondosas árvores, mas que a sociedade ignorante e preconceituosa insiste em não reconhecer. Pior. Perseguir.

Louv(ações) é o volume 2 da Coleção Nossas Raízes: do pertencimento afetivo ao enriquecimento cultural. Uma coleção voltada para as pessoas, surgida pelo desejo e “necessidade de partilhar e afirma a cultura afro-ameríndia de forma transparente e corajosa”. Raquel, com a potência de sua escrita, cheia de coragem e poesia, nos apresenta as raízes da Umbanda, religião de matriz africana que professa. Mas esse não é um livro religioso. É um livro humanista, sobretudo. Ele tem o poder de desmistificar e mostrar o mundo de amor e cuidado, preceitos e fundamentos não só da religião tão perseguida ao longo da história, mas da cultura que a envolve e a erigiu, a cultura africana sem qual não existiria o Brasil, em qualquer aspecto que imaginarmos.
Os versos formam ventos fortes a bater, mas

Um castelo em tua mão (de ferro)
Foi erguido no fazimento de dias

(Ventania, pág.20)

o que não nos faz temer qualquer tempestade ou inundação de areia, pois Iansã é “Rainha destemida erguida do vento”!

O destemor que abre caminhos em tristes tempos que causam dores. Raquel pede Ao Orixá da cura (Pág.58)

Leva embora, senhor Obaluaê
As mazelas da carência
Que de tanta resistência
Meu povo tem dor nos dentes
Nos olhos, nos sorrisos


Tais sorrisos sempre foram mais doloridos. Foi preciso apertar muito o peito e segurar muita lágrima nos olhos marejados de pó de ferro na cidade do aço. Mas

Ogum corta ondas no ar
Limpa os caminhos
Tira os espinhos”
(...)
“Ogum do ferro e do aço”
(...)
“Construir uma cidade não é fácil

(Ogum e acidade do aço, pág.59)

Foi na construção sectarista da cidade que deveria representar a nova sociedade brasileira que o Clube Palmares surgiu, impôs-se, e continua a lutar. Mas a dor inegável também encontra alentos , esperanças, “Bem-aventuranças” (pág. 69)

"Vejo uma esperança saltando
E nem sempre sei da sua angustiosa vontade
Mas observo que às vezes, no final da tarde
Ela me olha chorando

Será que esperanças só carregam alegrias?
"

A poesia de Raquel Leal é potente e cheia de recursos que envolve quem a lê em labirintos textuais que nos deixam com um sorriso gostoso quando os atravessamos, como é o caso dos poemas De manhã uma mulher é lida (pág.57) e Dessilente (pág.67).

Com um projeto gráfico aconchegante e denso, o texto é permeado por provérbios africanos que demonstram a sabedoria dessa cultura tão perseguida, ainda nos dias de hoje. Os versos deste livro deixam perguntas em nossos corações e um destes provérbios (pág. 21) nos avisa

Quem faz perguntas, não pode evitar respostas.

Respostas que a poeta nos ajuda a encontrar e nos encoraja à difundir.

Sarava poeta! Gratidão por tanto!
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